Andava ele no quinto ano quando a turma fez uma viagem de estudo a uma cidade vizinha. Cinquenta quilómetros separavam-nos da capital olímpica helvética e o meio de locomoção mais a jeito era o comboio. Nessa sexta-feira a miudagem aprendeu, ou fez de contas, algumas coisas sobre a Mesopotâmia, o norte de África, a arqueologia e os primórdios da tecnologia actual. Museus de pedra para alunos não menos pedrados de sono e com a vivacidade de um calhau. Uma bela combinação que acabou por lhe proporcionar das piores médias de que se lembra na disciplina de História, porque nunca foi muito amigo do passado. Na ida a boa disposição ainda se estampava na cara deles, absorvidos pelas brincadeiras típicas daquela geração de imberbes. Os amigos haviam acabado de lançar o boato de que uma rapariga gostava dele. Não era boato, e os amigos desafiaram-no a entregar a sua chama à colega. Em boa verdade ele fartara-se de ouvir as piadolas de mau gosto e acabou por sucumbir. Entregou-se e estava oficialmente perante a sua primeira amizade mais que cor-de-rosa. Era namoro. Toda o dia de visita se fez acompanhar por um “lado a lado” nas caminhadas, e pouco mais. Nada de olhares cumplices nem palavras meigas. Sempre frio que nem uma pedra da Mesopotâmia. No regresso, a nova condição obrigara-o a sentar-se ao lado dela, muito embora o trajecto tenha decorrido debaixo de um silêncio arrebatador. Essa viagem de comboio poderia ter ditado uma alteração de estado civil no seu bilhete de identidade se porventura a coisa tivesse pegado. Não pegou mesmo e na segunda-feira seguinte anunciava à menina que rompia o namoro. Nem um único beijo havia existido. Nunca gostou dela. Apenas perdeu a paciência e calou os amigos.
A carreira de basquetebolista ainda tentou sorrir-lhe quando a adolescência se aproximava a passos largos. Já naquele tempo era mais alto que os outros e essa condição poderia ser um bónus para alcançar os cestos. Depois de se matricular no desporto, mais por influência dos amigos, diga-se, começou a separar dois finais de tarde por semana para ir treinar no pavilhão. Pés nos pedais, bola entre as pernas e lá ia ele! Passado um mês iria participar no seu primeiro torneio. Cidade vizinha, Sábado animado. A sua equipa acabaria em penúltimo lugar e a única recordação que lhe resta é uma t-shirt verde que ainda hoje veste com muito gosto, embora seja só para dormir. Isto era inevitável, visto que ao único jogador alto da equipa, que era ele, faltava qualidade. Meteu-se o Verão, na rentrée os amigos da onça mudaram para o futebol e ele nunca mais pisou um campo de basket. Mas hoje pode sempre orgulhar-se de ter sido um federado.
Começou por ser simples espectador desinteressado e no fundo limitava-se a acompanhar para passar o tempo. Pouco tempo depois foi promovido a assistente-mecânico e as responsabilidades aumentaram.
Cabia-lhe a tarefa de colocar os cérebros electrónicos tanto no telecomando como no carro, de pôr gasolina no depósito e colocar o carro na grelha de partida. Esporadicamente ia buscar as cervejas e os croissants. Basicamente. Acabou a sua aventura como piloto a tempo inteiro, com o seu próprio carro e com direito a ouvir o seu nome dito pelo speaker suíço-alemão com um sotaque francês manhoso.
Sim, chegou a estar envolvido no Campeonato Suíço de carros telecomandados da Kyosho entre 1997 e 2001. Percorria a Suíça uma vez por mês. Havia dois tipos que odiava: um miúdo melhor e mais novo que ele e um tal Loosli Rolf, o suíço-alemão gordo e de bigode que ganhava tudo.
Saudades.
De cada vez que ele via uma máquina fotográfica, tinha a incrível capacidade de concentrar com toda a sua força a sua feiosidade para que ela aparecesse como uma áurea na película. De cada vez, estragava o filme e até o flash deixava de disparar por causa de dívidas à EDP.
Depois de prestado o serviço qual bom samaritano e em acto de bondade, foi-lhe dada uma prenda em jeito de agradecimento. Ele bem bateu o pé, bem recusou, bem amuou mas não houve como evitar. Hoje, uma prenda e quatro beijinhos esperavam-no. Recebeu um livro. “Basta!” de Don Cheadle e John Prendergast. Um livro que se preocupa com o acabar com o genocídio no Darfur. Vai ler, e provavelmente vai gostar. A sua luta pela negação terminou abruptamente sem que pudesse levantar a mão mais uma vez.
Prestou um serviço, qual bom samaritano e quiseram dar-lhe uma prenda em jeito de agradecimento. Em jeito de agradecimento ele recusou ameaçando bater o pé. Recusou porque não é Natal. Recusou porque não faz anos. Recusou porque um acto de bondade não tem preço. O seu pedido de recusa não foi aceite, e ele vai continuar a lutar pela negação a que tem direito.
Ela dizia que estava cansada e ele pediu-lhe desculpas por isso, dizendo-se culpado de a ter obrigado a andar de um lado para outro na sua cabeça o dia todo. Na verdade, nem ela lhe disse que estava cansada nem ele lhe pediu desculpas. Isso queria ele e ansiava pela oportunidade de o fazer finalmente, mas ela alegava sempre que eram só amigos.
Em determinada altura da sua pequenez chegou a usar gravata de elástico com um padrão muito duvidoso. Não porque os pais o obrigassem, mas porque estava realmente convencido que tinha classe e que alguém o ia congratular por tamanha elegância mais cedo ou mais tarde. Aconteceu, no dia em que a professora o mandou para casa quando resolveu ir assim vestido a uma reunião de pais que não lhe dizia respeito.
Ele teve uma infância difícil porque não conseguía olhar os seus camaradas directamente nos olhos. Mas se ousasse olhar alguns dos seus camaradas nos olhos, levava um chapo nos dentes. No fundo, teve uma infância difícil porque a sua fisionomia facial nunca esteve muito inspirada.