Andava ele no quinto ano quando a turma fez uma viagem de estudo a uma cidade vizinha. Cinquenta quilómetros separavam-nos da capital olímpica helvética e o meio de locomoção mais a jeito era o comboio. Nessa sexta-feira a miudagem aprendeu, ou fez de contas, algumas coisas sobre a Mesopotâmia, o norte de África, a arqueologia e os primórdios da tecnologia actual. Museus de pedra para alunos não menos pedrados de sono e com a vivacidade de um calhau. Uma bela combinação que acabou por lhe proporcionar das piores médias de que se lembra na disciplina de História, porque nunca foi muito amigo do passado. Na ida a boa disposição ainda se estampava na cara deles, absorvidos pelas brincadeiras típicas daquela geração de imberbes. Os amigos haviam acabado de lançar o boato de que uma rapariga gostava dele. Não era boato, e os amigos desafiaram-no a entregar a sua chama à colega. Em boa verdade ele fartara-se de ouvir as piadolas de mau gosto e acabou por sucumbir. Entregou-se e estava oficialmente perante a sua primeira amizade mais que cor-de-rosa. Era namoro. Toda o dia de visita se fez acompanhar por um “lado a lado” nas caminhadas, e pouco mais. Nada de olhares cumplices nem palavras meigas. Sempre frio que nem uma pedra da Mesopotâmia. No regresso, a nova condição obrigara-o a sentar-se ao lado dela, muito embora o trajecto tenha decorrido debaixo de um silêncio arrebatador. Essa viagem de comboio poderia ter ditado uma alteração de estado civil no seu bilhete de identidade se porventura a coisa tivesse pegado. Não pegou mesmo e na segunda-feira seguinte anunciava à menina que rompia o namoro. Nem um único beijo havia existido. Nunca gostou dela. Apenas perdeu a paciência e calou os amigos.
Histórias da sua vida (9)
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