Eu ando à deriva, não vale a pena escondê-lo. De mim próprio talvez. Ando à deriva porque a minha vida é um mar de incertezas e de indefinições. Estou a viver aos apalpões e a cada instante que passa descubro o caminho que me guiou, quando em tempo normal deveria descobrir o caminho que me irá guiar. Se penso virar à direita, vou antes em frente e elaboro uma quantidade infindável de bifurcações antes de finalmente tomar a iniciativa de virar. Se penso virar à esquerda, viro antes à direita e volto atrás depois andar a divagar por um bocado. A questão poderia ser tão simples como ‘vai ou não vai?’ mas tenho o condão de complicar e arranjar sempre uns pontos de interrogação. Ou então de arranjar umas virgulas quando se exige pontos finais. As várias áreas da minha vida estão todas muito bem estruturadas mas todas à deriva. Não culpo ninguém, culpo sim a minha falta de entrega, de empenho, de humildade e de simplicidade. Culpo o facto de não saber dizer as palavras certas, no tempo certo, no sítio certo e à pessoa certa. Sou culpado de não dar mais ouvidos a quem realmente tem autoridade em mim. A minha vida vai sendo definida pouco a pouco, ao passo dos acontecimentos quando na verdade deveria estar toda agendada com espaços no entanto mais ou menos brancos. A minha vida peca literalmente por falta de ambição e de determinação. E foi por isso que eu há dias disse que não pertencia a este mundo. Porque ando à deriva sem saber para onde me virar. Os poucos faróis cuja luz me vai iluminando são rapidamente escondidos por panos de nevoeiro incomodativo. Resta-me seguir as orientações brutalmente claras que vou recebendo e reencontrar-me com o leme.
A triste condição
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