Uma senhora já com alguma idade falece. Vem o seu filho dos Estados Unidos, e decide passar cá umas temporadas principalmente para tomar conta do pai, que ficou desolado e muito abatido. Passado pouco mais de um mês e meio, esse filho, que já tinha problemas de saúde algo longínquos, falece também. Vocês imaginam o que é que esse senhor deve estar a sentir?
Isto não é teatro, é a vida real e passou-se este fim de semana. Parece-me que Deus será o seu único reconforto. Só mesmo Ele para colmatar uma dor tão grande.
Foi preciso ir ao Porto para pôr os pés numa H&M que julgava ser mista mas que se revelou ser apenas para as senhoras. Fui só acompanhar.
Dois dias inteirinhos e eu realço a tarde de sexta-feira. A Avenida dos Aliados, onde tradicionais caminhantes se cruzam com modernos metropolitanos, foi o ponto de encontro, naquele que seria um ligeiro desvio ao programa inicial. Era a animação própria de um dia que celebrava qualquer coisa relativa aos Cravos. Beijinhos de boas-vindas e uma longa caminhada que nos levou a um destino óbvio da sociedade consumista. ViaCatarina. Excelente companhia e guia turístico deram o mote para conversas variadas. Primeiro, num longo passeio a serpentear o frenesim humano e arquitectónico da vida portuense e dos seus ícones. A seguir, numa mesa com vista para pouco autênticas fachadas históricas, com saborosos gelados suavizantes e refrescantes. Por fim, numa ida até à estação dos autocarros, inspirados por uma célebre cantiga das lides académicas de Viseu. Pelo meio, encontros súbitos com o Sá da Bandeira e o Coliseu. Uma tarde muito cultural, animada e sobretudo muito apreciada. Assim foi no Porto. Uma escapadela.
Havia um homem que dizia que naquele dia ganhou 20 Euros a mais ao não regressar a casa de táxi. Dizia-se esperto. Seguindo esse raciocínio eu ganhei 50 milhões de Euros ao não comprar 5 moradias. Não é?
Começou por ser simples espectador desinteressado e no fundo limitava-se a acompanhar para passar o tempo. Pouco tempo depois foi promovido a assistente-mecânico e as responsabilidades aumentaram.
Cabia-lhe a tarefa de colocar os cérebros electrónicos tanto no telecomando como no carro, de pôr gasolina no depósito e colocar o carro na grelha de partida. Esporadicamente ia buscar as cervejas e os croissants. Basicamente. Acabou a sua aventura como piloto a tempo inteiro, com o seu próprio carro e com direito a ouvir o seu nome dito pelo speaker suíço-alemão com um sotaque francês manhoso.
Sim, chegou a estar envolvido no Campeonato Suíço de carros telecomandados da Kyosho entre 1997 e 2001. Percorria a Suíça uma vez por mês. Havia dois tipos que odiava: um miúdo melhor e mais novo que ele e um tal Loosli Rolf, o suíço-alemão gordo e de bigode que ganhava tudo.
Saudades.
Algo muito comum entre a maioria dos homens, e até entre parte das mulheres, é gostar de carros. Não os qualificar como meros objectos de transporte mas afeiçoar-se a eles, cuidar deles e olhar para a sua beleza com algum orgulho. Por isso a compra de um carro nosso é uma decisão importante. Mas depois há os utilitários, os ditos carros comerciais, aos quais não passamos cartucho absolutamente nenhum e que apenas andam nas nossas mãos para satisfazer uma necessidade de deslocação laboral. E a analogia entra aqui. Isto é o mesmo que certas amizades, ou amizades utilitárias deveria eu dizer, que só servem para ajudar na realização de tarefas técnicas, sem qualquer afecto e sem qualquer sentimento. Tive uma amizade dessas recentemente… as Renault Kangoo é que nunca foram o meu forte.
De vez em quando costumam surgir na minha agenda umas viagens emocionantes que saem da monótona normalidade diária. Seja para visitar um amigo que mora longe, seja para ir a um evento especial. Curioso é que recentemente surgiu a possibilidade de ir ao Porto, e essa seria uma viagem que me deixaria particularmente agradado, por causa de um reencontro, pela vontade e até necessidade de dar um enorme abraço apertadinho a quem o merecia e pela perspectiva de um bom dia passado. Curioso é que os planos da viagem foram completamente alterados. A minha congregação incumbiu-me a tarefa de estar presente em terras nórdicas e a companhia dos amigos de cá irá proporcionar-nos dois dias de bem-estar lá por cima. Curioso é que, com planos alterados, a viagem prevê-se emocionante. Mais emocionante do que seria em situação normal, até. O abraço apertadinho que imaginei provavelmente vai ficar em estado pendente até que Jesus venha pela segunda vez. Mas este fim-de-semana vou ao Porto.
De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos. Não tínhamos frascos de medicamentos com tampas ‘à prova de crianças’ ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.
Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes. Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags - viajar à frente era um bónus. Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem. Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões.
Depois de acabarmos num silvado aprendíamos. Saímos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Não tínhamos Playstation ou X-Box. Nada de 40 canais de televisão, telemóveis, computadores, DVD, Chat na Internet. Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos à rua. Jogávamos ao elástico e à barra e a bola até doía! Caíamos das arvores, cortávamos-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal.
Havia lutas com punhos mas sem sermos processados. Batíamos às portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados. Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola; não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.
Criávamos jogos com paus e bolas. Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, eles estavam do lado da lei. Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre. Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas. Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo. És um deles? Parabéns!
Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós. Isto meus amigos é surpreendentemente medonho… e talvez ponha um sorriso nos vossos lábios: A maioria dos estudantes que estão nas universidades hoje nasceram em 1986…chamam-se jovens. Nunca ouviram ‘We Are the World’ e a ‘Uptown Girl’ que conhecem é dos Westlife e não do Billy Joel. Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname. A SIDA sempre existiu. Os CD’s sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco. Não sabem quem era o Justiceiro e o seu Kit. Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia rei da dança. Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie são filmes do ano passado. Não conseguem imaginar a vida sem computadores. Não acreditam que houve televisão a preto e branco.
Agora vamos ver se estamos a ficar velhos:
Entendes o que está escrito acima e sorris. Precisas de dormir mais depois de uma noitada. Os teus amigos estão casados ou a casar. Surpreende-te ver crianças tão à vontade com computadores. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis. Lembras-te da Gabriela (a primeira vez). Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos.
Estamos, não estamos?
Eu ando à deriva, não vale a pena escondê-lo. De mim próprio talvez. Ando à deriva porque a minha vida é um mar de incertezas e de indefinições. Estou a viver aos apalpões e a cada instante que passa descubro o caminho que me guiou, quando em tempo normal deveria descobrir o caminho que me irá guiar. Se penso virar à direita, vou antes em frente e elaboro uma quantidade infindável de bifurcações antes de finalmente tomar a iniciativa de virar. Se penso virar à esquerda, viro antes à direita e volto atrás depois andar a divagar por um bocado. A questão poderia ser tão simples como ‘vai ou não vai?’ mas tenho o condão de complicar e arranjar sempre uns pontos de interrogação. Ou então de arranjar umas virgulas quando se exige pontos finais. As várias áreas da minha vida estão todas muito bem estruturadas mas todas à deriva. Não culpo ninguém, culpo sim a minha falta de entrega, de empenho, de humildade e de simplicidade. Culpo o facto de não saber dizer as palavras certas, no tempo certo, no sítio certo e à pessoa certa. Sou culpado de não dar mais ouvidos a quem realmente tem autoridade em mim. A minha vida vai sendo definida pouco a pouco, ao passo dos acontecimentos quando na verdade deveria estar toda agendada com espaços no entanto mais ou menos brancos. A minha vida peca literalmente por falta de ambição e de determinação. E foi por isso que eu há dias disse que não pertencia a este mundo. Porque ando à deriva sem saber para onde me virar. Os poucos faróis cuja luz me vai iluminando são rapidamente escondidos por panos de nevoeiro incomodativo. Resta-me seguir as orientações brutalmente claras que vou recebendo e reencontrar-me com o leme.
Hoje o segurança aproximou-se do meu cunhado e, pedindo-lhe muitas desculpas, disse-lhe que não podia tirar fotografias ou filmar dentro do Shopping. Isto não é nenhuma novidade mas ao mesmo tempo surpreende.